O "Livro dos Mortos": Origem Histórica
O "Livro dos Mortos" foi o texto funerário mais “popular” do Egito Antigo, sua história começa quando os reis da XIII dinastia deixam a sua capital It-tawy subindo o Nilo retornando a Tebas (c. 1690 a.C). Nesta época os faraós e suas famílias deixaram ter acesso aos textos funerários produzidos em Mênfis e Heliópolis conhecidos como "Textos das Pirâmides", sendo forçados a adotar uma nova tradição do Alto Egito os "Textos dos Caixões", cujo centro difusor pode ter sido o templo de Thot em el-Ashmunein.
A mudança para Tebas criou a necessidade da redação de uma nova literatura funerária que auxilia se o destino póstumo do faraó e de sua corte.
O "Livro dos Mortos" foi uma adaptação de antigos textos funerários a novas concepções, aproximadamente 60% do texto é baseado nos "Textos dos Caixões", o início desta nova tradição surge pela primeira vez no caixão da rainha Montuhetep, esposa do faraó Djehuty da XVI dinastia (c. 1648 a.C.), encontrado em uma tumba em Dra Abu el-Naga, atualmente desaparecido o caixão é conhecido somente pelas cópias de Wilkinson. Outros achados indicariam que o "Livro dos Mortos" teve a sua origem no Segundo Período Intermediário, os principais são o sudário da múmia da rainha Ahmes, filha de Taa II da XVII dinastia (c. 1558 a.C.) que trazia escrito uma de suas fórmulas. E os fragmentos do sudário do rei Inyotef também da XVII. A julgar pelas evidências o "Livro dos Mortos" inicialmente foi destinado a sepultamentos de membros da família real, do final da XVII e início da XVIII dinastia escrito hieróglifo cursivo sobre os sudários de linho que envolviam as múmias.
Curiosamente esta preferência pelo "Livro dos Mortos" com texto funerário das rainhas e príncipes aparece séculos mais tarde na decoração das tumbas ramessidas no “Vale das Rainhas”.
A evidência mais confiável do mais antigo "Livro dos Mortos" escrito em papiro é o manuscrito de Nu datado do início da XVIII dinastia, não posterior ao reinado de Amenhotep III (c. 1388 a.C.)
A partir da XVIII dinastia tornou-se o principal texto funerário para a elite, escrito preferencialmente em papiro. Somente nos reinados de Hatshepsut e Thutmés III (c. 1479 a.C.) a prática de depositar o "Livro dos Mortos" junto ao o corpo de pessoas que não pertenciam à realeza tornou-se comum. Nesta época as vinhetas que “ilustram” os capítulos ganham importância tanto na qualidade artística quanto na quantidade de vinhetas. Durante o Período Saíta (c. 664 a. C.) atinge a versão canônica sendo estruturada em 165 fórmulas ou capítulos dispostos em uma ordem regular, conhecida como Recensão Saíta, que permaneceu em uso até o Período Ptolomaico quando atinge a sua forma completa com 192 capítulos.
Esta padronização das fórmulas e vinhetas (conteúdo e seqüencia) não significou uma estagnação, surge o estilo mênfita e o tebano evidenciando uma ruptura entre o Alto e Baixo Egito, onde circulavam versões diferentes para o mesmo capítulo e vinheta.
Todos os "Livro dos Mortos" são escritos em hieróglifos cursivos até a XXI dinastia (c. 1070 a.C.) quando passam também a serem escritos em hierático; na Baixa Época (c. 600 a.C.) empregam indiscriminadamente tanto o hierático quanto o demótico até o Período Romano (c. II século a. C.) quando deixa de ser o principal texto funerário, substituído pelo “Livro das Respirações” ou “Livro para Percorrer a Eternidade”.
As pesquisas sobre "Livro dos Mortos" começaram com Jean François Champollion em 1827 a partir de alguns exemplares reproduzidos na Description de l’Égypte, principalmente o papiro Cadet, segundo Champollion o título deste manuscrito era “Livro das Manifestações a Luz”.
A denominação “Livro dos Mortos” (Totenbuch) foi dada pelo egiptólogo alemão Richard Lepsius em 1842 após a sua publicação de um grande manuscrito ptolomaico, o papiro de Iufankh. Lepsius também foi o responsável pela divisão das fórmulas em 165 capítulos que formavam a Recensão Saíta estabelecidos na Baixa Época.
Willem Pleyte em 1881 publica os “Capítulos Suplementares” utilizando como ponto de partida a numeração de Lepsius apresentado os capítulos 166 a 174 datados da Baixa Época.
Finalmente em 1886, após 10 anos de trabalho, Henri Édouard Naville apresenta a primeira compilação de 71 papiros da XVIII a XX dinastia, guardados em coleções européias e do Museu Egípcio do Cairo. Naville mantém a numeração de Lepsius, mas não a de Pleyte chegando a 186 capítulos da chamada Recensão Tebana, isto é aqueles utilizados durante o Novo Império.
Foi Sir E. A. T. Wallis Budge quem primeiro utilizou um título semelhante ao original egípcio “Os Capítulos para Sair ao Dia” em sua compilação de1898que contou principalmente com os papiros do British Museum. Nela foram agrupados os capítulos do Novo Império com aqueles dos Períodos Saíta e Ptolomaico em uma mesma publicação, isto é os capítulos de 1 a 190, acrescentando ainda um léxico. A popularida da obra de Budge deveu-se em grande parte as belas reproduções das vinhetas dos papiros de Any e Hunefer que acompanhavam a sua tradução. Atualmente de domínio público possui incontáveis traduções em vários idiomas a despeito das inúmeras imprecisões e erros de sua tradução.
Entre 1952 e 1960 Thomas George Allen traduzindo os papiros do Oriental Institute Museum da Universidade de Chicago, incluiu os capítulos 191 e 192 a que correspondem ao chamado “Primeiro Livro de Glorificação de Osíris”.
Heerma van Voss em1973 com o papiro Leyden T3 e Terence DuQuesne em 1994 com o papiro Cairo S.R.VII 10228 incluíram a lista de capítulos conhecidos o 193 e 194 respectivamente.
Ainda são poucos os manuscritos traduzidos e analisados diante do número de papiros guardados nos museus. Atualmente temos publicações sistemáticas que de certa maneira continuam o trabalho de Naville, entre elas as coleções como a do British Museum e o Museo Gregoriano Egizio du Vatican já deram inicio a um programa de publicações de seus "Livros dos Mortos".
Duas grandes séries são dedicadas à publicação de papiros completos ou reunidos por períodos: Handschriften des Altägyptischen Totenbuches (HAT), Studien zum Altägyptischen Totenbuch (SAT).
Atualmente em preparação o Totenbuchprojekt,um banco de dados que pretende reunir os manuscritos espalhados pelos museus de todo o mundo, estabelecido pelas Universidades de Bonn e Colônia sob a direção de Ursula Rössler-Köhler e Heinz-Josef Thissen.
Temos traduções do "Livro dos Mortos" em edições de grande sucesso editorial, além da já mencionada feita por Budge, a tradução de Raymond Oliver Faulkner regularmente reeditada e sua edição fac-símile do papiro de Any.
As boas traduções de referência usadas tanto por especialistas quanto por estudantes, além do próprio Naville, são as de Paul Barguet com capítulos de épocas diferentes, selecionados de papiros da coleção do Museu do Louvre. A tradução de Thomas George Allen com textos de tradição tebana, saíta e variantes da XXI dinastia de papiros de várias coleções. E a de Erik Hornung que utiliza papiros do Novo Império.
Recentemente foi lançada uma tradução compilada de vários papiros da recensão tebana e saíta, feita por Claude Carrier, que traz também a transliteração do texto, mas que omite completamente das vinhetas e algumas rubricas importantes.
O "Livro dos Mortos": Forma e Função
Para os egípcios antigos o “Livro dos Mortos” é de origem divina e foi escrito pelo próprio deus Thot que fala pela boca do morto.
Embora a denominação "Livro dos Mortos" ainda seja a mais usada, ela nada tem a ver com o título original em egípcio prt-m-hrw “Livro para Sair ao Dia”.
A preposição m raramente possuiu o sentido de direção, na maioria das vezes seu significado está ligado ao momento em que se realiza a ação isto é “durante”. A palavra “dia” (hrw) significa o momento entre o nascer e o por do sol e não necessariamente a “luz do dia”. Contudo a luz do sol, levada ao Mundo dos Mortos pelo deus Rê, é um dos elementos centrais nos textos funerários, principalmente a partir do Novo Império, o sol considerado não somente como fonte de luz e calor, mas como fonte de vida, assim sendo o título pode ser também traduzido como “Livro para Sair à Luz do Dia”.
Essa busca pelo “sair ao dia” já está presente nos “Textos dos Caixões” assim como a capacidade de entrar e sair do Mundo dos Mortos segundo a vontade do morto.
A finalidade geral da obra, assegurar ao morto a inteira liberdade de movimento e de ação fora da tumba, aprece resumida no título da primeira fórmula ou capítulo: “Início das fórmulas para sair ao dia, e as glorificações (para) sair depois de ter entrado na necrópole (e do) glorioso e Belo Ocidente. Fórmulas que devem ser recitadas no dia do sepultamento (e pelas quais o morto) entrará depois de haver saído” .
Herdeiro dos "Textos dos Caixões" no conteúdo e na forma, tinha os textos escritos com tinta preta e os títulos das fórmulas e destaques escrito com tinta vermelha.
A grande inovação foi o uso do papiro, que tornou-se o suporte material característico para o “Livro dos Mortos”. Raramente utilizado antes para os textos funerários, este material caro, mas prático, adequou-se para a redação desse novo texto formando rolos que eram colocados próximo à múmia. O papiro permitia concentrar em uma superfície reduzida um grande número de preces e encantamentos, além de vinhetas ilustrativas que garantiriam a proteção do morto.
Esses rolos de papiro possuem uma altura entre 30 a 40cm e o comprimento que varia de versões resumidas com 1 a 2m até as versões completas com 15 a 37m.
O papiro não foi, todavia, suporte exclusivo para o “Livro dos Mortos”, podendo suas fórmulas e vinhetas aparecer também em paredes de tumbas e templos, sarcófagos, caixões, bandagens de múmia, estelas, estatuetas funerárias, óstracos e rolos de couro.
Ele se impôs como um dos principais textos funerários do Egito Antigo, para os primeiros egiptólogos era o equivalente à Bíblia dos antigos egípcios e o primeiro livro ilustrado do Mundo.
O “Livro dos Mortos” tem como função dar ao morto os meios de obter três condições básicas para a sua sobrevivência no Mundo dos Mortos: as preces dedicadas às grandes divindades, a regeneração e as transformações e o domínio das forças divinas por meio do conhecimento de seus nomes secretos.
Dessa forma o morto seria capaz de sair à luz do dia, de leste para oeste como o sol, continuando a sua existência, podendo rever a sua casa, proteger os seus familiares e amigos, vingar-se de seus inimigos, desfrutar das oferendas, adorar o deus sol e receber as bênçãos dos deuses. Obtendo a liberdade de locomoção e de alimentação tendo: “a felicidade no céu, a riqueza na terra e a vitória no Mundo Inferior”.
Dois grandes temas estão presentes no “Livro dos Mortos”: o primeiro é a vitória do morto no tribunal de Osíris, onde após negar as suas faltas, seu coração é pesado e ao ser confirmada a sua inocência, ele é declarado “justificado” ou “justo de voz” esse epíteto significa que o morto satisfez as condições de Maat.
O outro grande tema é a transformação do morto em um espírito glorificado (akh) diante do deus Rê tornando-o capacitado, assim como os deuses, a viajar na Barca Solar e a desfrutar dos Campos dos Juncos.
Desde os primeiros exemplares, esse novo conjunto de textos aparece como uma compilação de fórmulas, mais ou menos longas, repartidas em capítulos em uma sucessão que varia de papiro para papiro. Cada capítulo é precedido por um título, escrito em vermelho, que define os propósitos da fórmula. O texto é escrito em preto, traz as noções expressas no título. No final de cada texto pode vir uma rubrica, escrita também em vermelho, que especifica o modo de utilização do capítulo.
Alguns capítulos trazem após a rubrica um cólofon garantindo a sua eficácia: “funciona verdadeiramente, um milhão de vezes”.
As vinhetas são outro grande destaque do "Livro dos Mortos", elas ilustram o aspecto mais importante descrito no texto ou na rubrica. Alguns papiros, principalmente os da XIX dinastia, possuem vinhetas que são verdadeiras obras de arte e possuem um destaque ocupando a altura total da folha, como a do capítulo 16 “Hino em Louvor ao deus Rê”, do capítulo 110 “Os trabalhos nos Campos de Juncos”, do capítulo 125 “A Pesagem da Alma” e do capítulo 148 “As Vacas Sagradas”.
A sua função não é meramente decorativa e muitas vezes ou pela falta de espaço ou para encurtar o tamanho do livro servem como substituto do texto, fazendo com que muitos exemplares do “Livro dos Mortos” sejam quase que exclusivamente constituídos por ilustrações.
Existe uma grande disparidade tanto no conteúdo quanto na ordem dos capítulos, a tal ponto que não existem dois papiros idênticos, contudo existe uma preferência por determinados capítulo, considerados essenciais e que estão presentes em praticamente todos os papiros. Alguns capítulos funcionam como glosa onde são apresentadas interpretações mitológicas ou teológicas o que demonstra a dificuldade dos próprios egípcios em entender os textos.
Somente por volta do VII século a.C é que surge uma versão “padronizada” para o conteúdo e para a seqüência dos capítulos.
Com base nesta padronização podemos estabelecer as grandes divisões do "Livro dos Mortos" da seguinte forma:
Os capítulos 1 ao 16 temos a chegada do cortejo fúnebre à necrópole, a passagem pelas Portas guardadas por “demônios” e os hinos a Osíris e ao sol poente.
Os capítulos 17 a 63 a regeneração solar do Morto.
Os capítulos 64 a 129 a transfiguração e a regeneração do morto além do ponto focal do "Livro dos Mortos" o julgamento da alma onde o morto ao negar as suas faltas é justificado diante do tribunal divino, tornando-se capaz de sair à Luz do dia.
Os capítulos 130 a 161 onde como conseqüência de ser um justificado ele pode desfrutar da glorificação e viajar na Barca Solar pelo Mundo Inferior, será cultuado nos dias dos Festivais. Temos também uma descrição geográfica do Mundo dos Mortos e como confeccionar os principais amuletos funerários.
Em seguida temos os capítulos suplementares, presentes principalmente na Recensão Saíta.
Os capítulos 162 a 192 são fórmulas de proteção mágica e homenagens à Osíris e Rê no Mundo Inferior.
Os capítulos 163 a 167 são as “Amonianas” onde o deus-sol Rê aparece com o nome de Ámun.
O “Livro dos Mortos” marca um momento decisivo na história não somente da literatura funerária egípcia, mas do próprio ser humano diante de questões universais como a existência de uma alma imortal, as conseqüências das ações terrenas em uma vida póstuma onde os justos serão glorificados e desfrutaram da vida eterna.
Bibliografia:
ALLEN, Thomas George. The Book of the Dead or Going Forth by Day. Illinois: The Oriental Institute of the University of Chicago, 1974. (Studies in Ancient Oriental Civilization 37).
BARGUET, Paul. ‘‘Le Livre des Morts in Textes et langages de l'Égypte pharaonique: cent cinquante années de recherches 1822-1972’’. Hommages à Jean-François Champollion. Cairo: Institut Français d'Archéologie Orientale, 1972-1974.
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Texto adaptado de:
BRANCAGLION JR, Antonio. “O Livro dos Mortos do Egito Antigo”. In: RUGGERI, Maria Carolina Duprat (org.). Seminário de Pesquisa em História da Arte – Caderno de Pesquisa II. Curso de Especialização em História da Arte, FAAP, São Paulo, 2009.